O Êxodo Millenial

Alan Giongo

Design & Estratégia

Bem, talvez eu tenha forçado a barra. Em um primeiro momento, pode até parecer uma daquelas chamadas caça-clique. Aquelas que prometem explicar um fenômeno geracional em poucas linhas.


Mas a ideia é justamente convidar você para compartilhar uma reflexão sobre um movimento que tenho observado.

Não sei se ele já é grande o suficiente para ser chamado de êxodo. Mas talvez seja significativo o suficiente para merecer sua atenção.

Smart Traps

Se você usa o ecossistema Apple, sabe que não há nada que se assemelhe ao Apple Watch em termos de conectividade e experiência de uso. Ele ocupa um espaço muito particular na sua vida. É caro, relativamente frágil, precisa ser carregado todos os dias e, como todo bom dispositivo tecnológico, inevitavelmente deprecia.

Um relógio digital simples pode custar uma fração do valor de um Apple Watch SE (que é o menos caro) e, provavelmente, continuará funcionando muito tempo depois do smartwatch ter se tornado mais um objeto eletrônico esquecido em alguma gaveta ou vendido por uma bagatela em alguma plataforma de e-commerce.

Meu veredito sobre o smartwatch é simples: se você não se exercita, você não precisa de um desses. Na minha humilde reflexão, essa percepção levou a uma solução inesperadamente simples: um relógio convencional. E foi aí que comecei a pensar em algo maior.

A desconvergência digital

Durante décadas, fizemos exatamente o movimento contrário. Carregávamos um telefone para fazer ligações e:


  • outro aparelho para ouvir música

  • Talvez uma câmera

  • Um relógio no pulso

  • Um despertador na mesa de cabeceira

  • Um computador na escrivaninha


E, aos poucos, tudo começou a caber no mesmo objeto. O smartphone venceu porque eliminou a necessidade de todos os outros dispositivos. E ainda ofereceu mais.

Aos poucos, a batalha tecnológica deu um jeito de embutir muitos megapixels e seu telefone virou uma câmera razoavelmente decente.

E tocador de música, ufa!

Também virou GPS. Virou carteira. Televisão, videogame, agenda...

Virou rádio e jornal. Virou um computador que cabe na palma da sua mão. Um computador para trabalhar e também para descansar. E, talvez sem percebermos, virou também o lugar para onde transferimos quase toda a nossa atenção.

A convergência foi uma das grandes promessas da tecnologia. Ter tudo em um único dispositivo parecia eficiência. Durante muito tempo, foi.

Estamos começando a perceber o custo dessa eficiência.

O custo da eficiência

Hoje, praticamente não há necessidade de usar um computador se você não estiver trabalhando ou estudando. O uso recreativo foi quase completamente absorvido pelo smartphone.

A dose de dopamina oferecida por uma telinha de rolagem infinita é suficiente para nos manter – de bebês a idosos – entretidos durante horas. Vídeos. Notícias. Mensagens. Música. Jogos. Redes sociais. Livros. Tudo está ali.

O problema é o que acontece quando você sai da tela. Existe uma sensação difícil de explicar. Uma espécie de vazio. Como se tivéssemos passado horas ocupados sem, necessariamente, termos estado envolvidos em alguma coisa útil.

A câmera. A música. As mensagens. As notícias. O entretenimento. O trabalho. As relações.

E o banco! Ah, o banco. Talvez seja por isso que seja tão difícil parar de usar o smartphone. Não estamos abandonando apenas um objeto. Estamos abandonando simultaneamente dezenas de atividades, e mais um punhado de possibilidades que facilitam nossa vida.

A volta dos dispositivos específicos

Tenho observado um movimento curiosamente estranho:


  • Pessoas comprando câmeras digitais para não usar a câmera do celular.

  • MP3 players para ouvir música sem notificações.

  • Kindles, Kobos e outros leitores tipo e-ink para não ler no telefone.

  • Consoles portáteis para jogar sem abrir uma rede social entre uma partida e outra.

  • Relógios convencionais para não transformar cada movimento do pulso em mais um gráfico que não leva para lugar nenhum.


Algumas pessoas até voltaram aos telefones chamados de burros, os dumbphones. Não porque a tecnologia piorou. Mas porque talvez tenhamos concentrado tecnologia demais no mesmo lugar.

É uma espécie de desconvergência. Separar novamente as funções. Não por nostalgia, talvez pela autonomia.

Ter todo o conhecimento humano disponível em um único dispositivo é algo extraordinário. Eu não estou propondo aqui uma visão nostálgica da tecnologia. Muito menos um retorno a um passado idealizado e difícil. A convergência nos deu liberdade. Mas talvez também tenha criado uma dependência que ainda estamos tentando entender.

Uma câmera que serve apenas para fotografar não pode interromper você com uma notificação. Um Kindle não oferece uma timeline infinita (ainda). Um relógio convencional não mede sua produtividade. Um tocador de música não sabe onde você está.

A limitação, nesse caso, deixa de ser uma deficiência. Ela se transforma em uma fronteira. E fronteiras podem ser sim, saudáveis.

Não nascemos digitais

Talvez essa reflexão faça mais sentido para quem pertence à minha geração. Os millennials (ou Geração Y, pessoas que nasceram entre os anos de 1981 e 1996) não nasceram com um smartphone na mão.

Nós vimos tudo acontecer. O telefone celular ainda era, antes de qualquer coisa, um telefone. Servia para ligar e conversar em tempo real. Depois vieram as mensagens SMS. Os teclados físicos. Os aparelhos com teclado QWERTY.

E os primeiros smartphones.

Lembro muito bem de ter gasto meu primeiro décimo terceiro salário de CLT em um desejado iPhone 4.

Naquele momento, o smartphone vendia uma ideia deliciosamente sedutora: vendia o futuro.

E, de certa forma, era. Lembrando: as câmeras eram terrivelmente insuficientes para os padrões atuais. O armazenamento era limitado. A bateria se esvaía rapidamente. Mas ele já carregava dentro de si a promessa de substituir quase tudo.

E substituiu.

Eu tive um leitor de MP3. Você, provavelmente também. Um dia, ele simplesmente ficou em na gaveta e, de lá nunca mais saiu. O smartphone fazia a mesma coisa por meio de um app. E fazia tantas outras...

Nós acompanhamos essa convergência inteira. Por isso, talvez, também sejamos capazes de perceber algo que gerações mais novas não chegaram a experimentar. Houve um tempo em que cada objeto fazia uma coisa. E isso não parecia um problema.

Geração An-Di

Se você vivenciou essa revolução tecnológica como eu, talvez também tenha essa sensação. Não somos nativamente digitais. Fomos adaptados. Rendidos, talvez. Em alguns momentos, até obrigados.

Nossa vida profissional exige presença digital constante. Nossa comunicação depende de plataformas digitais. Nossa identidade social passou, em parte, a existir através de interfaces.

Não somos analógicos. Mas também não somos completamente digitais.

Somos híbridos. Talvez sejamos anadigi.

Uma geração que nasceu em um mundo analógico e aprendeu a viver em um mundo cada vez mais digital, regido pelos algoritmos.

Talvez o movimento que estamos começando a observar seja justamente uma tentativa de resgatar o equilíbrio entre esses dois universos. Não abandonar a tecnologia por completo, até porque isso é quase impossível. Mas voltar a escolher onde ela entra na nossa vida.

Talvez o futuro não esteja em ter tudo em um único dispositivo. Talvez esteja em recuperar uma capacidade que nos foi arrancada silenciosamente. A capacidade de decidir quando queremos estar conectados.

Vamos conversar!

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